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INNOMINĀTU

INNOMINĀTU

Esta foi uma peça em que tive um grande prazer em colaborar, por várias razões. A primeira e mais premente é a temática — a junção daquilo que é o tradicional e ancestral português com sensibilidades artísticas e retóricas modernas — ser algo que inspirou este projeto (Fauxclore) desde a sua raiz. Como noutras composições da Ordem do Ó, existe também aqui uma relação com o mágico e o simbólico.

Tentei criar na sonoplastia uma dicotomia que casasse as sonoridades tradicionais portuguesas (chocalhos, cantos de trabalho, tambores de pele de cabra) com a eletrónica e a música experimental "contemporânea" — com aspas, porque é mais próxima de algo que surgiria nos anos 90.

Foi talvez a sonoplastia mais coesa e consistente que criei, e aquela em que comecei a usar mais gravações de mim mesmo a tocar saxofone, até porque, na sua essência, é um instrumento que permite emular bastante bem a gaita-de-foles — um instrumento que (infelizmente, ainda) não tenho.

Careto

Um momento apoteótico de loucura e energia, com a junção de quase todas as músicas que surgiram ao longo do espetáculo, e um foco muito grande no ritmo que permitiu ao "careto" atingir o seu êxtase. O uso de distorção progressivamente mais intensa sugere-me um desfazer daquilo que é a noção de história, tanto da própria personagem como das tradições.

Chocalhos

O uso sucessivo de convolução sobre áudio já convolucionado é uma ferramenta que comecei a usar inspirado por Barry Truax, e que transformou os chocalhos que gravei o Pedro a usar em drones quase sintetizados. Nesta sonoplastia tentei também cingir-me a poucos sons como ponto de partida para cada música, transformados até se tornarem instrumentos completamente diferentes.

Gestos Mágico-Simbólicos

Esta música é mais uma inspirada por Steve Reich, cuja mão invisível está presente em quase toda a minha obra. Não consigo evitar as influências minimalistas quando me pedem para criar músicas rítmicas e marcadas, com recurso a instrumentos "tradicionais". Gosto bastante de "namorar" com o timbre orquestral, acabando por usar instrumentos digitais e algumas camadas gravadas por mim. Um dia, talvez, seja possível fazer uma nova versão destas músicas, gravada por grupos de música de câmara — mas, de qualquer das formas, considero a versão atual bastante satisfatória a nível tímbrico e expressivo.